domingo, 28 de outubro de 2012
Alceste
«Toda a estima se quer em preferência assente, / E é nada estimar estimar
toda a gente. / Se nestes tempos dais em vícios tão sandeus, / Pois
é, feito não sois a serdes cá dos meus; / Rejeito a complacência
assim de um coração / Que em méritos não faz nenhuma distin-
ção; / Que me distingam quero; e a fala é terminada, / O amigo da
espécie humana não me agrada.»
quarta-feira, 24 de outubro de 2012
Os vinte minutos iniciais tiveram um tom trágico onde a palavra destino foi usada dez vezes e a palavra amizade vinte e quatro. O nome de Liz Norton foi pronunciado cinquenta vezes, nove delas em vão. A palavra Paris foi dita em sete ocasiões. Madrid, em oito. A palavra amor foi pronunciada duas vezes, uma por cada um. A palavra horror foi pronunciada em seis ocasiões e a palavra felecidade numa (empregou-a Espinoza). A palavra resolução foi dita em doze ocasiões. A palavra solipsismo, em sete. A palavra eufemismo, em dez. A palavra categoria, no singular e no plural, em nove. A palavra estruturalismo, numa ( Pelletier). O termo literatura norte-americana, em três. As palavras jantar e jantamos, pequeno-almoço e sandes, em dezanove. As palavras olhos, mãos e cabeleireira, em catorze. Depois a conversa tornou-se mais fluida.
Roberto Bolaño, 2666.
Roberto Bolaño, 2666.
Não ligues ao som dos arbustos que se prolonga pela vila.
Talvez seja um eco de mim, no entanto não tem o meu cheiro. Tem o cheiro da
vila, tem o cheiro a terra molhada que tanto me fez sonhar, dos campos de
cravos que florescem ao longo da extensa comunidade, fomos prolongando as casas
primeiro, e no lugar das casas o cheiro agora, talvez um eco de mim não sei, o
que me impressionava, lembro eu de longe, era do rio, sempre o rio que me refletia
os olhos por inteiro.
-Esse rio é meu,
Levando o braço
direito o mais hirto que podia apontava para o horizonte, onde o rio se perdia
no meio de nuvens e montanhas que prolongavam a vila, uma bola de fumo que subia com o ar, e com o restolhar da vila
o som dos arbustos, talvez seja um eco de mim.
Agora aqui sentado, no cume da
vila vejo o meu eu partir, sereno, talvez procure o silêncio que tanto anseia.
Um dia espero que ele volte. Por enquanto contento-me a ouvir o som dos arbustos
que se prolonga ao longo da vila, talvez seja um eco de mim parado no tempo.
João Soeiro
A minha
saudade tem o mar aprisionado
na sua teia de datas e lugares.
É uma matéria vibrátil e nostálgica
que não consigo tocar sem receio,
porque queima os dedos,
porque fere os lábios,
porque dilacera os olhos.
E não me venham dizer que é inocente,
passiva e benigna porque não posso acreditar.
A minha saudade tem mulheres
agarradas ao pescoço dos que partem,
crianças a brincarem nos passeios,
amantes ocultando-se nas sebes,
soldados execrando guerras.
Pode ser uma casa ou uma rede
das que não prendem pássaros nem peixes,
das que têm malhas largas
para deixar passar o vento e a pressa
das ondas no corpo da areia.
Seria hipócrita se dissesse
que esta saudade não me vem à boca
com o sabor a fogo das coisas incumpridas.
Imagino-a distante e extinta, e contudo
cresce em mim como um distúrbio da paixão.
José Jorge Letria, in "A Metade Iluminada e Outros Poemas"
na sua teia de datas e lugares.
É uma matéria vibrátil e nostálgica
que não consigo tocar sem receio,
porque queima os dedos,
porque fere os lábios,
porque dilacera os olhos.
E não me venham dizer que é inocente,
passiva e benigna porque não posso acreditar.
A minha saudade tem mulheres
agarradas ao pescoço dos que partem,
crianças a brincarem nos passeios,
amantes ocultando-se nas sebes,
soldados execrando guerras.
Pode ser uma casa ou uma rede
das que não prendem pássaros nem peixes,
das que têm malhas largas
para deixar passar o vento e a pressa
das ondas no corpo da areia.
Seria hipócrita se dissesse
que esta saudade não me vem à boca
com o sabor a fogo das coisas incumpridas.
Imagino-a distante e extinta, e contudo
cresce em mim como um distúrbio da paixão.
José Jorge Letria, in "A Metade Iluminada e Outros Poemas"
terça-feira, 23 de outubro de 2012
A você que lê estas linhas. No outro dia li uma notícia que
me deixou perplexo, não sei dizer se fiquei faxinado ou se assustado, talvez
uma mistura dos dois. Você, o seu avô, o seu vizinho, eu, ou qualquer outra pessoa
no mundo, está apenas a seis graus de separação (atualmente dizem que o numero
desceu para quatro graus) de Barack Obama, ou de António Lobo Antunes.
Em poucas palavras: você
está apenas a seis pessoas de quem quiser. Tudo isto acontece com o aumento da
globalização, sempre que se abre uma ligação (ex:facebook ) o mundo torna-se consequentemente
mais pequeno.
Um exemplo da teoria dos seis graus de separação é passar o
mundo para um estádio de futebol. Se quiser passar uma mensagem duma ponta à
outra do estádio, dizendo pessoa a pessoa, demorará uma eternidade e sem
garantia de sucesso. Agora se der um telemóvel às duas pessoas que se encontram
na posição oposta do estádio, vai conseguir com que eles comuniquem no momento
e assim passar a mensagem. Agora se der um telemóvel a todos os adeptos no
estádio, consegue colocar todos eles em contacto e assim o estádio torna-se
mais pequeno, pois abrimos mais ligações. O mesmo se passa com a aldeia global
em que vivemos, sempre que se abre uma ligação, o mundo fica mais pequeno.
Sonho com a descoberta. Partir para a vastidão, conhecer os
solos e amá-los em silêncio, sonho. Sim, sonho como tantos outros. Sonho com os
meus próprios campos de rosas, cravos, e bem-me-queres, campos imensos de
palavras, palavras que crescem como as árvores, e atravessá-las como as gotas
da chuva que alimentam a terra.
Enfim, sou uma névoa
de fumo que se vai dissolvendo sobre textos, sementes de vida que dão fruto ao
espírito libertino que não se acanha, ou tento sê-lo. Sabe, como isto vai tão
turvo nem eu sei bem como sou. Acendo um cigarro e a neblina engana-me a vista,
percebe? Os erros! Sem dar por nada está preso numa teia de erros. Tantos
erros. Erro sempre por princípios, pelo menos duas a três vezes por dia,
faz-nos bem este exercício diário de errar. Tomo comigo uma ideia, acordar e
pensar nos erros que queremos dar nesse dia, de seguida realizá-los e por fim,
antes de deitar é claro, depois de escrever umas páginas no diário, refletir,
sim, refletir acerca dos erros de hoje, confio que assim nos poderíamos superar,
enfim lá estou eu a sonhar.
Sonho que um dia possam espelhar a minha névoa de fumo sobre
todos os meus campos de rosas, cravos, e bem-me-queres e assim seguir rumo no
rio que corre livre no tempo, no tempo dos Homens e Mulheres. No meu tão
querido tempo. Corram todos que isto não dura para sempre, até os campos se
dissolvem quando provam o sabor azedo da morte.
João Soeiro
Com a crise dos livros que o mundo do séc.XXI atravessa, que me tem
vindo a preocupar ao longo do tempo, decidi publicar este vídeo da revista ler,
onde escritores dão a sua opinião sobre a magia de ler. O livro-papel está a
beira do abismo? Ainda existem pessoas que gostam de ler? Acredito que existem,
não sei onde, mas andam por ai. Ler é reencontro com o nosso eu, tão raro no
nosso quotidiano, é a troca de opiniões e de saberes. Um refúgio, para mim ler
é um refúgio onde posso ser apenas eu, sem vergonha ou preconceito, o meu
espaço único onde ninguém, mas mesmo ninguém tem acesso. Leiam tudo o que
puderem, tudo o que souberem e também o que não perceberem, acima de tudo leiam,
provavelmente o único concelho que posso dar.
Passos solenes digo eu, dirão eles
também? Não sei. Sei apenas que peço, e atentem bem neste ponto, não é uma
ordem, apenas peço passos solenes. É tudo o que peço, não é assim muito, pois
não? O que acha? Dê a sua opinião, aqui todos são ouvidos, entrai! Entrai todos
por essas portas dentro, mas lembrem-se, sempre com passos solenes: eis a primeira
regra. Afinal o anarquismo não é um “estilo” sem ordem, agora poderá ser para
alguns, não sei, mas se remetermos às origens do anarquismo poderemos reparar
que é bem organizado e assenta em regras básicas, como deverá saber. Resumindo,
anarquistas são contra qualquer tipo de ordem hierárquica que não seja livremente
aceite, assim sendo, preconizam os tipos de organizações libertárias baseadas na livre associação, ou seja, se não temos uma ordem hierárquica
teremos que viver numa sociedade organizada por si, isto leva a uma profunda
organização, provavelmente mais exigente do que existe com uma elite
governamental (elite?). Assim sendo assenta em regras, caso contrário é a
desordem total, será contraditório dizer que
anarquia não utiliza regras, pois para se ter uma verdadeira aceção da palavra
anarquia, e repito anarquia, é preciso um conjunto de regras que levem a uma
vida em sociedade estável, entende? Não? Pois, eu entendo-o, nem eu sei bem do
que falo. Não fique aqui a pensar que sou anarquista, não. Nada disso. Não sou
anarquista, não sou monárquico, perdi o gosto da democracia, odeio comunismo e
capitalismo, não sou surrealista, não sou realista nem neo-realista, e muito
menos neo-abjecionista (ideia de gozo), não sou nada. Se me perguntar quem sou,
apenas direi que não sou ninguém.
A segunda regra é, pois bem, o silêncio. Preciso
de muito silêncio, esgotar o silêncio. Comer o silêncio, engolir o silêncio e
por fim digerir o silêncio, no fundo preciso muito, mas mesmo muito do
silêncio, que quer? São apenas manias, todos temos manias, imensas manias,
senão enlouquecíamos, isto se já não estivermos loucos, e quem não gosta da
loucurazinha? Eu gosto. Agora passe, mas cuidado com o degrau, passo a vida a
cair nesse degrau.
A todos os Mortos,
Sejam muito bem-vindos.
Photomaton & Vox, título de uma autobiografia de
Herberto Helder, “o poeta obscuro” , publicada pela Assírio & Alvim. Photomaton
era o nome das máquinas fotográficas instantâneas, como o próprio título
indica, Photomaton & Vox é um autorretrato do escritor, neste caso, por ser
uma autobiografia, mistura histórias reais com sonhos surreais, nada é garantido.
Como disse o poeta: “não há nada mais de apaziguador que falhar em todos os
lados da biografia”.
Deixo-vos com um poema de Herberto, escrito na parede de um
quarto na Real República da Loucura, em Coimbra.
HISTÓRIA
O senhor do monóculo
usava uma boca desdenhosa
e na botoeira, a insolência
duma rosa.
Era o poeta.
Quando passava
- figura subtil e correta,
toda a gente dizia
que era o poeta.
- figura subtil e correta,
toda a gente dizia
que era o poeta.
- Era, portanto, o poeta...
Mas um dia
o senhor de monóculo
quebrou o monóculo,
guardou a boca desdenhosa
e esqueceu na mesa de cabeceira
a flor que punha na botoeira,
a insolente rosa...
o senhor de monóculo
quebrou o monóculo,
guardou a boca desdenhosa
e esqueceu na mesa de cabeceira
a flor que punha na botoeira,
a insolente rosa...
Entrou nas tabernas e bebeu,
cingiu o corpo das prostitutas,
jogou aos dados e perdeu,
deu a mão aos operários,
beijou todos os calvários
- e aprendeu.
E o mundo,
que o chamava poeta,
esqueceu;
e quando o via passar
limitava-se a exclamar:
- o vagabundo!
Mas o senhor do antigo monóculo,
da antiga figura subtil e correta,
sentia vozes dentro de si,
vozes de júbilo que diziam:
- É o Poeta! É o Poeta!...
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