Photomaton & Vox, título de uma autobiografia de
Herberto Helder, “o poeta obscuro” , publicada pela Assírio & Alvim. Photomaton
era o nome das máquinas fotográficas instantâneas, como o próprio título
indica, Photomaton & Vox é um autorretrato do escritor, neste caso, por ser
uma autobiografia, mistura histórias reais com sonhos surreais, nada é garantido.
Como disse o poeta: “não há nada mais de apaziguador que falhar em todos os
lados da biografia”.
Deixo-vos com um poema de Herberto, escrito na parede de um
quarto na Real República da Loucura, em Coimbra.
HISTÓRIA
O senhor do monóculo
usava uma boca desdenhosa
e na botoeira, a insolência
duma rosa.
Era o poeta.
Quando passava
- figura subtil e correta,
toda a gente dizia
que era o poeta.
- figura subtil e correta,
toda a gente dizia
que era o poeta.
- Era, portanto, o poeta...
Mas um dia
o senhor de monóculo
quebrou o monóculo,
guardou a boca desdenhosa
e esqueceu na mesa de cabeceira
a flor que punha na botoeira,
a insolente rosa...
o senhor de monóculo
quebrou o monóculo,
guardou a boca desdenhosa
e esqueceu na mesa de cabeceira
a flor que punha na botoeira,
a insolente rosa...
Entrou nas tabernas e bebeu,
cingiu o corpo das prostitutas,
jogou aos dados e perdeu,
deu a mão aos operários,
beijou todos os calvários
- e aprendeu.
E o mundo,
que o chamava poeta,
esqueceu;
e quando o via passar
limitava-se a exclamar:
- o vagabundo!
Mas o senhor do antigo monóculo,
da antiga figura subtil e correta,
sentia vozes dentro de si,
vozes de júbilo que diziam:
- É o Poeta! É o Poeta!...
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